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Investigação da ‘Abin Paralela’ cita hacker de Araçatuba como possível risco à segurança presidencial

Brasil – A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de levantar o sigilo de parte da investigação sobre o uso ilegal de ferramentas de monitoramento pela Agência Brasileira de Inteligência trouxe à tona novos e sensíveis detalhes do escândalo conhecido como Abin Paralela.

 

Entre os documentos analisados pela Polícia Federal, surge com destaque o nome de Patrick César da Silva Brito, o chamado hacker de Araçatuba, apontado em depoimentos como um potencial risco à segurança presidencial durante o governo Jair Bolsonaro. Atualmente, Patrick vive fora do país, na Sérvia.

 

Alerta interno na inteligência

Depoimentos colhidos no inquérito revelam que o nome do hacker circulava internamente na Abin associado a preocupações diretas com a proteção do presidente da República.

 

Em oitiva realizada em 24 de setembro de 2024, o agente de inteligência Eriton Lincoln Torres Pompeu afirmou que o caso de Patrick estava ligado a um alerta envolvendo o sistema de segurança presidencial, em episódio que citava um coronel do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

 

Segundo o agente, não houve contato direto de sua equipe com o hacker, tampouco confirmação de aproximação por outros servidores da agência.

 

Outro depoimento relevante foi prestado em 27 de novembro de 2024 por Marcelo Furtado Martins de Paula, ex-coordenador-geral da Abin. Ele relatou ter recebido, da chefia de gabinete de Alexandre Ramagem, um pendrive com vídeos, documentos e outros arquivos relacionados a Patrick, material que teria sido repassado por um coronel do GSI.

 

Acusações, chantagens e avaliação técnica

De acordo com o depoimento, o hacker teria feito ameaças de exposição de dados envolvendo militares e jornalistas, incluindo a tentativa de associar um coronel do GSI ao caso da cocaína apreendida em um avião da Força Aérea Brasileira.

 

O material também incluiria supostas contas de internet e telefonia ligadas a autoridades da República. Apesar da gravidade do conteúdo, Furtado afirmou à Polícia Federal que, tecnicamente, Patrick não era considerado um hacker sofisticado.

 

Rastreamento ilegal e vigilância intensiva

O relatório da Polícia Federal aponta que, entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2021, Patrick foi monitorado 561 vezes por meio do software israelense First Mile, capaz de localizar celulares em tempo real.

 

O rastreamento ocorreu sem autorização judicial, utilizando credencial vinculada a um servidor identificado como “TC01”. A ferramenta integrava uma estrutura paralela de vigilância dentro da Abin, usada para acompanhar alvos considerados estratégicos pelo governo da época.

 

A investigação concluiu que Patrick nunca atuou como colaborador da agência, ao contrário do que sugeriu publicamente. Para os investigadores, ele era tratado exclusivamente como alvo de espionagem.

 

Abin Paralela e implicações políticas

O episódio integra a investigação mais ampla sobre a chamada Abin Paralela, que resultou no indiciamento de mais de 30 pessoas, incluindo o vereador Carlos Bolsonaro e o deputado federal Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin.

 

Segundo a Polícia Federal, a estrutura clandestina teria sido utilizada para a produção de dossiês e o monitoramento ilegal de adversários políticos, jornalistas e integrantes do Judiciário. Entre os alvos estariam ministros do STF, como Luís Roberto Barroso.

 

Transparência e controle democrático

Ao levantar o sigilo dos autos principais, Alexandre de Moraes afirmou que o vazamento seletivo de trechos da investigação vinha alimentando versões distorcidas na imprensa. Permanecem sob sigilo apenas documentos que envolvem dados bancários e fiscais.

 

O avanço do inquérito deve esclarecer os limites ultrapassados pelo aparato de inteligência estatal e reacende o debate sobre controle democrático, legalidade e abuso de poder no uso de ferramentas de espionagem no Brasil.

 

 

fonte: Folha da Região

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