Brasília – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva agendou para a próxima semana uma reunião com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), com o objetivo de alinhar os próximos passos da proposta que prevê o fim da escala de trabalho 6×1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias seguidos e descansa apenas um. O encontro deve contar também com a presença da ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos.
O tema já vinha sendo tratado internamente no governo e foi debatido durante um jantar realizado na noite de quarta-feira (4), no Palácio da Alvorada, que reuniu Lula, Motta, Gleisi e Boulos. Segundo informações da CNN Brasil, o presidente deixou claro que considera ideal a adoção de uma escala máxima de 5×2, com dois dias consecutivos de descanso semanal. Inicialmente, a proposta em análise no Congresso previa um formato ainda mais ousado: quatro dias de trabalho seguidos por três de folga.
Além da mudança na escala semanal, o projeto também envolve a redução da jornada de trabalho. A ideia central é estabelecer o limite de 40 horas semanais, com possibilidade de diminuição gradual até 36 horas, seguindo tendências observadas em outros países e em experiências pontuais no Brasil. Para o governo, a medida pode contribuir para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, reduzir o esgotamento físico e mental e estimular a geração de empregos, ao exigir a contratação de mais mão de obra em alguns setores.
Por outro lado, representantes do setor produtivo têm manifestado forte resistência à proposta. Entidades empresariais argumentam que a mudança pode elevar custos operacionais, comprometer a competitividade das empresas brasileiras e gerar impactos negativos especialmente em áreas como comércio, serviços e indústria, que dependem de jornadas mais extensas ou escalas rotativas. Empresários também defendem que qualquer alteração desse porte deveria ser implementada de forma gradual e acompanhada de medidas de compensação econômica.
Apesar das preocupações do mercado, Hugo Motta teria demonstrado simpatia pela iniciativa e avaliado que existe ambiente político para aprovar o projeto ainda no primeiro semestre de 2026, antes que o calendário eleitoral passe a dominar a pauta do Congresso. A intenção do presidente da Câmara é iniciar a tramitação da proposta já na última semana deste mês. Para reduzir resistências, especialmente entre parlamentares da direita e do centro-direita, a relatoria do projeto deve ficar com um deputado de perfil mais moderado, visto como capaz de construir consensos.
No Palácio do Planalto, o fim da escala 6×1 é tratado como uma das principais bandeiras do terceiro mandato de Lula no campo trabalhista, ao lado da ampliação de direitos para entregadores e motoristas de aplicativos. O governo enxerga essas pautas como estratégicas para recuperar o diálogo com a classe trabalhadora, em especial com trabalhadores informais e precarizados — grupo que, segundo avaliações internas, se afastou da esquerda nas últimas disputas eleitorais.
Dentro desse esforço, Lula determinou recentemente a criação de um núcleo específico no Planalto dedicado ao diálogo com trabalhadores informais. A iniciativa tem como objetivo aproximar o governo desse segmento, ouvir demandas diretamente da base e fortalecer a agenda social da atual gestão. A reorganização das relações de trabalho, com foco em jornadas mais humanas e maior proteção social, é considerada um dos pilares centrais dessa estratégia.
Se avançar, a proposta pode representar uma das maiores mudanças na legislação trabalhista brasileira desde a reforma de 2017, com impacto direto sobre milhões de trabalhadores em todo o país e potencial para redefinir o debate sobre produtividade, bem-estar e equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
fonte: brasil247.com